Quem é Joana Darc? As perguntas que a empresa de Allyson e Cinthia deixa em aberto
Sem Mordaça RN Há uma empresa no nome de Allyson Bezerra que não aparece em nenhum debate da campanha ao Governo do Rio Grande do Norte. Ela se chama Chafariz Consultoria e Produções Ltda, nasceu em Mossoró em 14 de julho de 2021, no sétimo mês do primeiro mandato dele como prefeito, e tem duas pessoas no papel: ele, como sócio, e Cinthia Pinheiro, mulher dele e hoje candidata a deputada estadual, como administradora. O capital é de R$ 15 mil. A Receita Federal a mantém com o CNPJ suspenso desde 3 de abril de 2024.
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Ter empresa não é irregularidade, e o Blog do Dina não encontrou um único pagamento público a essa empresa nas bases que consultou. O que a Chafariz produz são perguntas, e são estas: o que ela fez nos quase três anos em que esteve ativa, por que uma empresa de publicidade e pesquisa de opinião aberta por um prefeito ficou de fora da declaração de bens que ele entregou à Justiça Eleitoral em 2024, e de quem é o telefone que ela deixou cadastrado na Receita, que aplicativos de identificação de chamadas registram em nome de uma Joana Darc.
Primeira pergunta: o que a empresa fez?
Allyson tomou posse na Prefeitura de Mossoró em 1º de janeiro de 2021. Em julho daquele ano, a Chafariz entrou no cadastro da Receita com o nome da comunidade rural onde ele nasceu, o Sítio Chafariz, que é a marca da própria biografia política dele. O endereço é uma sala comercial, a 108, na Rua Frei Miguelinho, 703, no bairro Doze Anos.
A atividade principal declarada é consultoria em gestão empresarial. As secundárias descrevem melhor o que a empresa se propunha a fazer:
agência de publicidade; pesquisas de mercado e de opinião pública; estúdios cinematográficos; serviços de comunicação multimídia; edição integrada à impressão de livros; comércio varejista de livros; organização de feiras, congressos, exposições e festas; criação de estandes; treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial; educação profissional de nível técnico.
Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica — Receita Federal
Publicidade, pesquisa de opinião, produção audiovisual e eventos. O ramo inteiro de quem trabalha com campanha, aberto por um prefeito no primeiro ano de mandato.
A Receita registra que a Chafariz entregou escrituração fiscal em 2021, 2022, 2023 e 2024, sempre no regime de lucro presumido. Isso diz que houve movimento contábil nos quatro anos. Não diz quanto, nem com quem.
Segunda pergunta: por que ela não está na declaração de 2024?
Em outubro de 2024, candidato à reeleição, Allyson declarou ao Tribunal Superior Eleitoral 11 bens, somando R$ 582.092,31. Lá estão o apartamento de Natal, um veículo, seis saldos bancários, R$ 151.343,93 em Tesouro Direto, metade de um terreno e R$ 20 mil em espécie. Não está a Chafariz. Ele era sócio dela havia três anos e três meses.
A declaração de bens de candidato não é uma formalidade decorativa: é o instrumento pelo qual o eleitor acompanha o patrimônio de quem disputa e administra dinheiro público. O formulário do próprio TSE tem uma categoria chamada “quotas ou quinhões de capital”. Em 2024, ela não foi usada.
Em agosto de 2026, já candidato ao governo, Allyson passou a declarar duas linhas nessa categoria: “quotas em pessoa jurídica”, R$ 15 mil, e “quotas em pessoa jurídica”, R$ 150 mil. Nenhuma das duas nomeia a empresa. Os R$ 15 mil são exatamente o capital da Chafariz. Os R$ 150 mil não têm dono conhecido: nenhuma outra empresa com o nome dele no quadro societário apareceu nas bases públicas consultadas pelo blog, e só a Junta Comercial responde a isso.
Cinthia Pinheiro, que estreia como candidata, declarou um único bem: metade de um terreno, R$ 75 mil. Como administradora, e não sócia, ela não tem quota a declarar.
Terceira pergunta: por que suspender em abril de 2024?
Em 3 de abril de 2024, seis meses antes da eleição municipal, a Chafariz passou à situação “suspensa” no cadastro da Receita. O motivo registrado é “interrupção temporária das atividades”.
Suspensa não é baixada. A empresa continua existindo, o sócio continua sócio, e a quota continua sendo bem declarável. A suspensão apenas informa ao fisco que a atividade parou. Também não apaga o que veio antes: a escrituração de 2024 foi entregue.
Quarta pergunta: quem é Joana Darc?
O contato que a Chafariz deixou na Receita é um celular de Mossoró, (84) 9986-0869, cadastrado no formato antigo de oito dígitos, e o e-mail chafarizcp@gmail.com.
O Blog do Dina submeteu o número a uma ferramenta que cruza bases de aplicativos de chamadas e de redes sociais. Dois aplicativos de identificação de chamadas devolvem o mesmo nome: “Joana Darc Roq”, com o sobrenome truncado pelo próprio serviço. O número também aparece vinculado a uma conta de Facebook cujo nome começa com “J” e cujo e-mail, parcialmente oculto, termina em “s@gmail.com”.
Esse tipo de base não vem de operadora. Ela é alimentada pelas agendas de quem instala o aplicativo: o nome aparece porque outras pessoas salvaram o número assim. Isso não prova a titularidade da linha, e a reportagem não afirma que prova. Prova outra coisa, menor e ainda assim curiosa: para quem tem esse número gravado no celular, ele não é da Chafariz, nem do candidato, nem da mulher dele. É de uma Joana Darc.
O blog procurou o nome no diário oficial de Mossoró e nos autos da Operação Mederi. Nenhuma Joana Darc Roque aparece ligada à empresa em registro público.
Não seria a primeira vez que um cadastro no entorno de Allyson aponta para um nome de fora. Em agosto, a quebra de sigilo dos cinco perfis “espontâneos” que faziam campanha para ele mostrou que os telefones verificados nas contas estavam em nome de pessoas sem função conhecida na operação daqueles perfis.
O que já foi procurado e não foi achado
Três buscas fecharam sem resultado, e é justo registrar cada uma.
Nos empenhos publicados pelo Tribunal de Contas do Estado, não há pagamento à Chafariz pela Câmara, pelo Fundo de Saúde, pela Assistência Social, pela Educação ou pela Secretaria de Comunicação de Mossoró entre 2021 e 2024. A base da Prefeitura, no mesmo sistema, só devolve dados de 2021, e naquele ano também não há nada. No Portal Nacional de Contratações Públicas, o CNPJ não tem contrato.
A terceira busca foi nas campanhas. A empresa nasceu em julho de 2021, e desde então houve três eleições: 2022, 2024 e 2026. O Blog do Dina varreu as prestações de contas das três no Rio Grande do Norte, receitas e despesas. Só nas de 2022 e 2024 são mais de 230 mil linhas, e nem o nome da Chafariz nem o CNPJ dela aparecem em uma sequer. Na de 2026, atualizada até 11 de setembro, também não. Nenhum candidato potiguar declarou ter contratado a empresa de publicidade e pesquisa de opinião do prefeito de Mossoró.
Dinheiro público, portanto, não apareceu. Dinheiro de campanha declarado, também não. O que continua sem aparecer é a resposta às quatro perguntas acima.
O espaço está aberto para manifestação.




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