VÍDEO] Esgoto nos estuários, silêncio oficial e risco anunciado: investigação expõe crise ambiental em Guamaré
Sem Mordaça RN Um alerta vindo de dentro da água. Literalmente. Um mergulhador que atua nos estuários dos rios Aratuá e Miassaba decidiu fazer o que o poder público deveria ter feito há muito tempo: coletar amostras de água, com georreferenciamento e metodologia declarada, para expor a real condição ambiental dos rios que sustentam parte relevante da economia e da vida social de Guamaré. O relato é direto, incômodo e converge, ponto a ponto, com o que já vinha sendo denunciado por técnicos, produtores e pesquisadores: esgoto doméstico lançado de forma recorrente, tratamento ineficiente, possível irregularidade de licenças ambientais e completa ausência de transparência oficial.
O vídeo mostra o mergulhador realizando coletas ao longo de aproximadamente dez quilômetros, incluindo a Boca da Barra, para comparar a qualidade da água em diferentes pontos dos estuários. O cenário descrito é grave: presença constante de dejetos, coliformes fecais, esgoto “maltratado” e vazamentos que escorrem pelas ruas e chegam diretamente aos rios. A referência explícita à proximidade da bacia de tratamento da Prefeitura de Guamaré levanta uma suspeita central: a estação não estaria operando de forma adequada — ou sequer regular —, o que transforma o sistema de saneamento em fonte permanente de contaminação.
O testemunho não surge no vazio. Ele dialoga diretamente com o que já foi tecnicamente apontado em estudos e análises recentes sobre o município, que mostram níveis elevados de coliformes termotolerantes, sinais claros de eutrofização e um sistema estuarino operando no limite do colapso ambiental
A combinação entre esgoto sem tratamento eficaz e o aporte adicional de matéria orgânica — especialmente em períodos de grande pressão urbana, como o Carnaval — cria um ambiente propício à redução drástica do oxigênio dissolvido na água, com consequências conhecidas: mortandade de peixes e camarões, proliferação de bactérias patogênicas e perda acelerada da qualidade ambiental.
O mergulhador descreve ainda um fator pouco debatido, mas crucial: a dinâmica das marés. Nas marés cheias, a maior vazão ajuda a diluir parte da carga poluente. Já nas marés secas, especialmente nas marés grandes, o movimento inverso empurra a contaminação de volta para dentro do estuário, concentrando poluentes e ampliando o risco ambiental e sanitário. É nesse momento que a população ribeirinha, os pescadores artesanais e os trabalhadores da carcinicultura ficam mais expostos — seja pelo contato direto com a água, seja pelo consumo de pescado potencialmente contaminado.
A fala do mergulhador também escancara um ponto sensível: a inversão de papéis. A iniciativa privada e cidadãos comuns assumem custos financeiros e técnicos para produzir dados que deveriam ser públicos, enquanto o poder municipal se mantém reativo, quando não ausente. A cobrança é direta: onde estão os órgãos fiscalizadores? Onde estão o Idema, o Ibama, a Secretaria de Meio Ambiente? Se há licenças vencidas ou falhas operacionais, por que não há ações preventivas, relatórios públicos ou medidas emergenciais?
O material técnico já existente mostra que os impactos extrapolam o meio ambiente. A carcinicultura, atividade estratégica para Guamaré, depende diretamente da estabilidade e da qualidade da água dos estuários. Um episódio agudo de anóxia pode destruir viveiros inteiros em poucos dias, com prejuízos milionários, desemprego e perda de mercados. A pesca artesanal e a mariscagem seguem o mesmo caminho, comprometendo renda, segurança alimentar e a própria identidade cultural das comunidades locais.
Há ainda o risco sanitário, frequentemente subestimado. Ambientes com alta carga orgânica e esgoto favorecem a circulação de agentes como bactérias do gênero Vibrio, além de hepatite A e infecções gastrointestinais e dermatológicas. O fato de o próprio mergulhador relatar banhos frequentes no rio — ainda que em condições específicas de maré — evidencia o grau de exposição cotidiana a que parte da população está submetida.
O que emerge desse conjunto de informações é um quadro de urgência. Não se trata de disputa política, nem de narrativa alarmista. Trata-se de dados, relatos técnicos, observação empírica e coerência científica. Se as análises laboratoriais confirmarem o que os indícios já apontam, a omissão do poder público deixará de ser apenas administrativa para assumir contornos de responsabilidade ambiental e sanitária.
Guamaré está diante de uma encruzilhada. Ignorar os sinais, desacreditar quem coleta dados e adiar providências pode custar caro — em empregos, em saúde pública, em danos ambientais de longa duração e, sobretudo, em credibilidade institucional. A investigação informal iniciada por um mergulhador lança uma pergunta incômoda, mas inevitável: por que foi preciso alguém entrar no rio para mostrar o que deveria estar nos relatórios oficiais?




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